Senescência

Simone de Beauvoir foi uma escritora e filósofa integrante do movimento existencialista. Em seu livro “A Velhice”, ela vai discorrer sobre a senescência de forma bastante crítica e com um olhar clínico e sensível. Vários fatores vão corroborar para essa ojeriza à ideia de envelhecimento existente nas sociedades pós-modernas. A pouca representação, a falta de alusão à velhice em obras literárias, cinematográficas e musicais são fatores que irão potencializar esse fenômeno. Em uma sociedade que almeja a produção, os idosos são tratados como párias, como algo que não é digno de investimento. Ao limitar-se ao prisma econômico, o Estado burguês irá tratar os idosos como algo estranho, que parece não pertencer à mesma espécie, devido à dificuldade dos mais jovens compreenderem as necessidades e os sentimentos de uma geração que já não contribui economicamente, ou que não se adapta às mudanças que ocorrem em velocidades cada vez maiores, em uma sociedade caracterizada pela liquidez. Isso também se reflete no modelo de produção, em que comprar algo novo compensa mais economicamente do que consertar o produto defeituoso. A ideologia do consumo se apegou ao imagético, da forma que a impressão e os sentidos transmitem ao observador em contrapartida ao que é real. Nos indivíduos isso vai se refletir através de tentativas cada vez mais constantes de esconder marcas de expressão típicas da idade.

As ideologias políticas e de mercado tendem a querer se apossar dos jovens. Assim como houve a juventude hitlerista, há a juventude católica, a juventude socialista, os jovens de esquerda e de direita. Os anciões que estão na direção das maiores corporações almejam manter sua visão de mundo, mas buscam prolongar sua influencia na história através do investimento em terceiros, prioritariamente mais novos. Por outro lado, com a instauração da burguesia, os herdeiros quando assumem os negócios da família querem que os pais assumam uma posição passiva. Houve o período em que o idoso ganhou uma importância estrutural na família, simbolizando a permanência dos costumes, no entanto, com a aceleração das mudanças, os filhos tendem a seguir uma linha própria nos negócios. Percebe-se aí o núcleo rígido, que é o capital, na estruturação de uma família.

A forma como é tratada uma criança é amplamente tida como prioridade em diversas organizações sociais. Caso careçam do mínimo existencial, ela irá crescer e provavelmente desenvolverá rancor, medo e até ódio, que se voltará contra a sociedade de algum modo e manchará a nitidez das virtudes, tão necessária no modelo democrático, como bem frisou Montesquieu. A criança que foi maltratada, quando adulta, não cuidará dos pais em idade avançada. No entanto, quando recebem o devido carinho, educação e insumos necessários, os jovens se apegam aos seus antecessores e tendem a tratá-los com dignidade. O tratamento recebido pelos mais velhos está intrinsecamente ligado à educação recebida pelos jovens. Se esse pré-requisito (educação) não é atendido, cria-se um círculo vicioso extremamente prejudicial para a terceira idade, já que os velhos dispõem de poucas ferramentas para lutarem por seus direitos. São os ativos que decidem, segundo seu próprio interesse prático e ideológico, qual o papel que convém atribuir aos anciãos.

A Carta Magna, criada na Inglaterra em 1215, determina que “Os filhos maiores têm o dever de ajudar e amparar os pais na velhice, carência ou enfermidade”. Foi um passo importante na criação dos direitos humanos. No entanto, atualmente, fica cada vez mais comum a construção de unidades familiares que fogem do padrão socialmente imposto. Os casais LGBTs e os casais que optam por não terem filhos vão depender de outros modelos quando atingirem a velhice. Para isso, as instituições que desempenha a função pública de cuidar dos idosos devem receber mais atenção. O Estado ainda trata essas estruturas de forma periférica. É preciso que haja uma mudança de cenário, já que, o cuidado com o idoso se tornou uma responsabilidade central do poder público e não mais apenas uma exceção. A longevidade é uma novidade do Século XXI que pretende ser perene, no entanto, os anciões ainda são tratados como “morredores”, que apenas aguardam pelo fim.

As sociedades também precisam passar por uma reforma dos modelos de trabalho. Apesar dos trabalhos modernos demandarem menos força muscular, a aceleração do ritmo, a obrigatoriedade da produção, aumenta o desgaste e o estresse psicológico. Quanto mais desgastante o trabalho, mais cedo esses idosos precisarão se afastar das atividades laborais. As tecnologias atreladas aos modos de produção devem trabalhar para minimizar esses desgastes.

Publicado por Mateus Alves

Sou um estudante de jornalismo, apegado às ciências humanas e em busca de consciência. Dessa forma, sigo tentando ver em cada fresta um mundo sobre o qual vale a pena debater. Novos textos toda terça e quinta.

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