Isaac Asimov foi um escritor e bioquímico apaixonado por tecnologia e ficção científica. Durante uma entrevista, em 1988, ele previu o impacto dos computadores na educação. Asimov afirmou, naquela época, que no futuro os alunos iriam passar por um processo de independência das instituições de ensino. As escolas iriam continuar existindo, mas cada discente iria aprender em seu próprio ritmo.
“Uma vez que tenhamos canais, computadores em cada casa, cada um deles ligados a “bibliotecas” enormes, onde qualquer indivíduo possa fazer perguntas e ter respostas e obter material de referência sobre qualquer assunto em que esteja interessado em saber. Você pode fazê-lo em sua própria casa, no seu ritmo, na direção que quiser e a seu próprio tempo.” (ASIMOV, 1988).
O escritor também foi o pioneiro da robótica, ao inventar o termo e deliberar sobre conflitos éticos e lidar com a inteligência artificial. Ele era um defensor da relação de confiança entre a humanidade e os robôs, contrariando muitos em sua época, que tinham medo de que a civilização se tornasse obsoleta diante das novas tecnologias. Em seu livro, “Eu, Robô”, ele versa pela primeira vez sobre as três leis da robótica. As leis resolveriam parte dos problemas éticos que a humanidade teria que enfrentar no futuro. São elas: um robô não pode ferir um humano ou, por omissão, permitir que algum ser humano sofra algum mal. Um robô deve obedecer as ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos em que tais ordens contrariem a Primeira Lei. Um robô deve proteger sua própria existência, desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira e a Segunda Lei. Tais princípios são abordados no capítulo “brincadeira de pegar”.
Essas leis, entretanto, não resolvem todos os problemas éticos, pois algumas vezes a não omissão diante de um caso de violência acarretaria em violência. Proteger um humano poderia significar intervir e machucar outro. Supondo que as primeiras máquinas possuam um pensamento denominado na computação como “if-else”, onde a partir de uma condição verdadeira há uma ação, levando em conta a complexidade do contexto social, muitas dessas ações seriam tomadas em dissonância com o pensamento majoritário. Talvez exista uma estranheza com relação ao modo de agir desses novos “seres”.
Entretanto, por se tratar de uma máquina, tanto pode haver estranheza, quanto confiança na precisão da racionalidade das decisões, devido às regras imposta pelas três leis. As emoções serão sempre o fator de maior diferenciação entre um ser humano e uma máquina. Essa diferença é tema de diversas obras cinematográficas como, por exemplo, o filme “Blade Runner” (1982), baseado no livro “Androides sonham com ovelhas elétricas?”, de Philip K. Dick. Na história de ficção científica, robôs fisicamente indistinguíveis de pessoas reais buscam se misturar à raça humana, mesmo sem a capacidade de sentir emoções. Atualmente, alguns autores, ao contrário de Asimov, começam a mostrar certo melindre com relação aos avanços tecnológicos.
Robôs e alma
Muitos religiosos denominam a capacidade de sentir emoções como parte do sentido de ter alma, além de reagir conforme os dilemas de ética e moral. Se as máquinas estão nos substituindo cada vez mais em trabalhos manuais, há de se especular que no futuro elas possam executar trabalhos complexos, que demandem um julgamento apurado e mais humanizado. É possível prever que, antes das civilizações alcançarem a vida eterna, elas criem seres capazes de fazer tudo o que fazemos. Não há sentido em se tornar algo inferior, mesmo que para obter a vida eterna.
O movimento estético, Arts & Crafts, que surgiu na Inglaterra no século XIX, pretendia dar valor ao produto artesanal, que corria riscos diante da Revolução Industrial. De fato, um produto artesanal carrega mais características de valor agregado, como o fato de ser um objeto único e demandar mais trabalho. Além disso, apenas a produção em massa e os avanços tecnológicos daquela época nos permitiram atingir o primeiro bilhão populacional. Entretanto, objetos artesanais, únicos e personalizados são criados através de muito conhecimento técnico e capacidade de julgamento. As primeiras máquinas apenas repetiam uma função, com o desenvolvimento da tecnologia, é de se esperar que elas operem atividades cada vez mais complexas.
Há duas reflexões fundamentais na abordagem do tema. O chamado complexo de Frankenstein e o desemprego estrutural. A primeira reflexão traz o nome do romance escrito por Mary Shelley, quando tinha apenas 19 anos, entre 1816 e 1817, mas foi empenhado como “complexo” apenas nas obras de Isaac Asimov. O escritor visionário previu o medo das civilizações contemporâneas. Esse medo advém de vários fatores como, por exemplo, o efeito “uncanny valley”, que provoca estranhamento das pessoas. O “vale da estranheza” é o termo utilizado pela estética e pela robótica para designar réplicas humanas que se comportam de forma muito parecida a seres humanos reais. Essas réplicas acabam provocando repulsa entre observadores humanos. O complexo de Frankenstein é o medo da premissa de que a criação sempre destruirá seu criador. Histórias muito mais remotas relatam profecias similares. Orestes, filho do rei Agamemnon de Micenas e da rainha Clitemnestra, estava destinado a matar a própria mãe. Ainda na mitologia grega, Cronos tirou seu pai do poder, casou-se com a irmã Reia e governou durante a Idade Dourada da mitologia. Seu poder perdurou até ele ser derrubado pelos filhos: Zeus, Poseidon e Hades. Trata-se de um medo recorrente na história da humanidade, talvez os criadores tenham medo do vigor das criações.
Já o desemprego estrutural é um fato mais palpável e recente na história. A primeira revolução industrial se caracterizou pela mão de obra assalariada e pela perda do controle do processo produtivo por parte do trabalhador. Já a terceira revolução industrial substituiu, por exemplo, pessoas que trabalhavam no campo, por máquinas colheitadeiras. A revolução atual transformou a empresa Bluckbuster obsoleta e valorizou a empresa Netflix, que emprega menos de 5 mil pessoas e não tem nenhuma loja física. Até a década de 90, o aumento de produção era acompanhado de um aumento do salário, principalmente no setor terciário. De acordo com a obra “A Segunda Era das Máquinas”, escrito por dois cientistas do MIT, atualmente essa razão não tem sido direta. A produção tem aumentado em uma escala muito maior e os salários das famílias de classe média ficaram estagnados, gerando grandes desigualdades. Isso ocorre por não haver mais geração de novos postos de trabalho e setores, para onde os operários migravam antigamente, através da especialização. Entre aumentar salários ou aumentar a automação, as empresas tendem a escolher a automação. A troca da mão de obra humana pela automação tem se tornado cada vez mais uma questão de segurança e não apenas uma questão econômica. As máquinas são mais precisas e não cansam. Dessa forma, a civilização está aproveitando os últimos postos de trabalhos gerados pelas inovações tecnológicas. Os motoristas de aplicativo são oriundos dessas inovações, entretanto, no futuro os carros não precisarão de motoristas, assim como os caminhões, entre outros objetos que serão operados de forma automática.
A criação e o criador
A criatura do doutor Frankenstein, por não ter alma, destrói o seu criador. Em uma Odisseia no Espaço, todo o conflito surge a partir da revolta de uma máquina. A criação é um processo de ludibriar o observador, as tecnologias atuais permitem que especialistas criem robôs que apenas imitam comportamentos humanos. Se assemelham aos humanos com respostas pré-programadas. As máquinas estão, dessa forma, inevitavelmente ligadas aos seus criadores. Elas não serão perfeitas, na medida em que se tornarão mais complexas. Pelo contrário, conflitos éticos e morais tendem a surgir com a complexidade. As máquinas reproduzirão certos comportamentos preconceituosos e por serem padronizados, terão uma escala maior de consequências. Além disso, reforça algumas atitudes antiéticas da sociedade.
Uma das consequências da revolução indústria e do advento da arquitetura modernista foi a perda da ornamentação com valor puramente estético. O excesso de automação provocou uma busca ferrenha pela funcionalidade. Esse fenômeno gerou impacto no modo de criar, na forma de pensar, falar e escrever. Atualmente os vocabulários estão menos fartos, as criações são mais pragmáticas e até as reflexões se repetem, em campo globalizado e semipadronizado. A próxima fase de automação pode tanto superar esses problemas, quanto intensifica-los. A era da inteligência artificial pode ter como consequência a criação de novos seres, capazes de criar e de inovar. Ou podem apenas repetir nosso comportamento rotineiro, nossa separação da vida em trabalho e lazer, típico da jornada de trabalho de um operário do século XIX.
O preço para uma criação que fuja dessa padronização é fornecer liberdade. Exigir submissão tem como retorno um comportamento padronizado. A criação é um ato arriscado, que sempre envolve erros e liberdade para cometê-los. A máquina não erra, porque ela não cria. A primeira máquina que tentar inovar e agir fora de suas diretrizes irá cometer erros. A humanidade teria que se preparar para esses erros. Mesmo em uma civilização de pessoas, aqueles que ousam são vistos com estranheza.
Alan Turing, considerado o pai da computação, questionava se as máquinas seriam capazes de pensar. O ato de trazer consciência para entidades não biológicas se tornou possível através dos estudos filosóficos do campo da lógica, iniciados por Aristóteles. A partir da lógica foi possível criar algoritmos, já que, enquanto a sociologia estuda as relações sociais, a lógica estuda o pensamento. O conteúdo é o que pensamos, mas o pensamento é a forma. Aristóteles estudava a forma como pensamos e através desses estudos, foi possível criar os algoritmos, que atualmente se estabelecem como a forma de pensamento das máquinas. Parte do motivo das máquinas substituírem as pessoas é devido a forma como elas pensam. Enquanto os indivíduos biológicos pensam de forma conteudista e departamentalizada, focados em conhecer a fundo apenas uma área específica, a máquina reconhece padrões e tem se adaptado melhor aos contextos. Com a revolução digital, as pessoas têm tido acesso a uma quantidade enorme de informações, mas não há um filtro ou um processamento à altura. O processamento advém do pensamento crítico e da consciência, mas a modernidade tem acostumado a sociedade com respostas rápidas e enganosas. As pessoas estão sem tempo de processar as informações que são recebidas diariamente. Por isso, as máquinas estão destinadas a superar os seus criadores ou a copiá-los, mas nunca a ficarem obsoletas.