Impactos da Tecnologia na Comunicação

Os avanços técnicos da sociedade são uma constante, junto deles há um avanço potencial das ferramentas comunicacionais. As implicações dessa busca por novas técnicas vêm tendo impactos significativos na sociedade e nos indivíduos. Ao analisar especificamente o século XX, como é feito no filme “Nós que aqui
estamos por vós esperamos”, é possível observar que o primeiro grande impacto tecnicista do século XX foi catalisado pela revolução industrial, que teve início ainda no século XVIII. Entretanto, as maiores consequências desse movimento, de troca da atividade manufaturada pela industrialização, foram evidenciadas nos anos novecentos. Junto às mudanças tecnológicas vieram as mudanças comunicacionais. Entre as novas tecnologias, destacavam-se a lançadeira volante para tear, o cadinho, a spinning jenny, uma máquina de fiar que se destacava pela alta velocidade, e as máquinas a vapor. As consequências culturais e comunicacionais desse novo modelo produtivo foram a divisão e a especialização do trabalho, que alienavam o operário para intensificar a geração de capital. Além disso, houve um aumento do consumo, o trabalho assalariado passou a ser maioria, o que influenciou diretamente o surgimento das primeiras metrópoles.

Uma característica marcante da alienação é a valorização da mercadoria em troca da perda da identidade daqueles que a produzem. Aos operários, que produziam vários carros na fabrica da Ford, por dia, não era dado o direito de possuir aquele bem. O individuo era privado de sua individualidade em troca do favorecimento da produção. No livro “A sociedade do espetáculo” de Guy Debord, escrito às vésperas do movimento estudantil de 1968, que caracterizou uma paralisação geral da França, o autor discorre sobre uma série de espetáculos que servem como ferramenta de coesão social aos modelos de produção. “O espetáculo em geral, como inversão concreta da vida, é o movimento autônomo do não vivo”, afirma ele em seu livro. O espetáculo é o resultado e o projeto do modelo de produção existente. Ele é feito para dominar e se adaptar ao modelo social dominante, através de todas as suas formas particulares, informação ou propaganda, publicidade ou consumo. Os espetáculos fazem uso da positividade, eles são o meio e o fim. Na visão do autor, isso significa ter domínio de uma classe e presidir a sua constituição. Significa, também, oferecer aos revolucionários falsos modelos de revolução e alimentar a cobiça da sociedade de consumo.


Há uma busca ferrenha por controle e sentido. Na busca por superar suas limitações físicas o homem cria ferramentas que acabam por controlá-lo. A busca pelo aprimoramento da técnica sem o aprimoramento da comunicação gera crises e guerras. O avanço da comunicação não é sinônimo de melhoria das ferramentas comunicacionais, mas sim da relação, da percepção e da convivência com o outro. No livro “Uma história social da mídia”, o autor versa sobre o fenômeno das vias expressas, “sociedades e culturas diferentes, que haviam começado suas jornadas históricas separadamente, estavam viajando juntas na mesma “via expressa de informação”, afirma ele. Entretanto, esse encontro repentino, sem uma melhoria da forma e do entendimento do outro, gera uma crise comunicacional. Quando o autor discorre sobre o surgimento e aprimoramento dos canais de comunicação, ele afirma que, apesar de haver cada vez mais canais, esses não aparentam a pluralidade esperada. Os avanços tecnológicos também geram crises econômicas, quando substituem a mão de obra ou as transforma. Além disso, quanto maior era a expansão dos canais de TV, maior era o incentivo à desregulamentação, a fim de promover a tão sonhada pluralidade. No século XX, depois que as novas ferramentas e suas consequentes problemáticas surgiram, vários livros sobre as mídias foram publicados. Os movimentos de vanguarda seguem esse padrão: primeiro surge a crise comunicacional, depois a solução e o mercado reage em paralelo. Como no exemplo do movimento feminista, explicitado no filme. Há uma mudança cultural, fruto da luta de vários grupos, em seguida o mercado reage criando a minissaia. Toda revolução cultural é antecedida por um momento pré-pragmático, de conflito e instabilidade, paralelo a isso está o mercado. Hitler tentou combater qualquer movimento de vanguarda, para isso ele agiu de forma eloquente com seu discurso totalitarista e paranoico. Ele pretendia valorizar a arte idealizada com preceitos clássicos de perfeição. Ao valorizar a perfeição, ele classificava a arte moderna como sendo uma arte degenerada, combatendo persistentemente o que não era clássico. Todas as ações dele foram sustentadas pela propaganda nazista, que convencia os alemães da superioridade do clássico. Em contrapartida, nos anos 60, Timothy Francis Leary promovia experiências com substancias psicotrópicas nas universidades, um ato extremamente subversivo para a época. A luta entre as tradições e as inovações marca a relação de dois vetores opostos. As sociedades históricas não podem ter andamento senão pela inovação constante da cultura.

A superposição ou convergência das tecnologias, junto dos objetivos por elas pretendidos, geraram uma série de novas técnicas que possibilitaram a criação de novas ferramentas comunicacionais. Surgem dessa forma os satélites, as fibras óticas, redes de banda larga, redes locais, entre outras ferramentas. Com essa expansão tecnológica, passou-se a incentivar o ensino na área da eletrônica e da tecnologia da informação. Os primeiros protótipos do computador foram criados para fins bélicos, eram chamados de “máquinas universais” e foram originados por Alan Turing. Esse foi um grande expoente da convergência, pois essas novas máquinas possuíam várias funções. O refinamento da técnica de circuito integrado de resistores possibilitou a criação de chips, já na década de 50 e posteriormente, na década de 70, a criação de microprocessadores que possibilitaram a ampliação das plataformas digitais, já que viabilizavam o investimento. Todo dispositivo de rádio frequência tem, em sua maior parte, transistores, o que também gerou um ganho de alcance na área. Dessa forma, o próximo passo foram os componentes móveis, como o walkman e o celular. Após isso os computadores foram fazendo cada vez mais parte da vida das pessoas, interferindo inclusive na edição de livros, jornais e revistas. Nesse contexto apareceram os primeiros jogos de computador, que começaram como um item de desenvolvimento e acabaram ganhando seu próprio mercado. A partir da popularidade dos primeiros videogames, surgem os primeiros questionamentos a respeito do efeito dessa máquina sobre as crianças. Entre as diversas tecnologias oriundas da pós-modernidade, destaca-se o ato de convergir diferentes técnicas. Cada técnica pode representar uma evolução, mas não uma revolução e seguem para pontos distintos que vez ou outra se convergem. Como é o caso dos chips, dos computadores e dos satélites. Para estudar a realidade a partir de uma dimensão histórica é possível partir de duas atitudes distintas: a aproximação ou o afastamento histórico. Para Henry Rousso o desafio é analisar o tempo em que se vive, nesse caso é preciso ter um afastamento histórico. Já para Roger Chartier a aproximação do objeto é benéfica para entender os processos de forma contínua, pois o historiador está fisicamente e emocionalmente próximo do fato. A experiência pessoal modela a forma de ver a história, dessa forma, pessoas oriundas de uma mesma época, mas que possuem experiências diferentes, dificilmente concordarão. É preciso aprender a negociar. O desafio da comunicação é o desafio da negociação, o conflito acontece no “agora”. Apesar de terem algumas poucas teorias revisionistas, a maioria das pessoas chega num consenso sobre o que aconteceu no passado devido ao que foi aprendido nas instituições de ensino. Trata-se de um processo amplo de estruturação. As negociações ocorrem com mais frequência entre pessoas de gerações diferentes, pois para quem veio de outra realidade a mudança não é natural e na pós-modernidade, ou modernidade líquida, ela ocorre em velocidades exponenciais.

Atualmente, os meios de comunicação são inclusivos e acessíveis a todos, mas o debate é restrito, devido ao baixo conhecimento formal da população. Dificultar a ligação entre autor e receptor torna ainda mais restrito esse debate. O indivíduo formado em um curso, como o de comunicação, tem um papel social. Ele tem, não só a obrigação de conhecer os códigos da língua, mas também de se fazer entender por diversos núcleos sociais, conciliando informação e comunicação. Dessa forma, é importante destacar que para impactar um maior número de leitores recorremos à tecnologia, entretanto, é necessário ter cuidado com a perda de elementos essenciais. A comunicação, sobretudo na internet, tem sido cada vez mais abreviada, muitas vezes marcada apenas por sensações. Além disso, as pessoas estão trocando livros por vídeos e filmes, o que diminui ainda mais o repertório de leitura e empobrece o vocabulário da população em geral. Junto a isso, ocorre a morte do pensamento crítico, pois os maiores sites da internet restringem as pesquisas através de um algoritmo que fornece apenas informações e pontos de vista procurados anteriormente pelo usuário. Ou seja, não há diversidade de opiniões, apenas de informações, que muitas vezes possuem baixa credibilidade. Há também o fenômeno da “espiral do silêncio” idealizado por Noelle-Neumann, em que indivíduos omitem sua opinião quando conflitantes com a opinião dominante. Tais fenômenos fortalecem ainda mais a hipótese de que o século XXI será marcado por uma crise comunicacional. As pessoas estão cada vez mais isoladas em suas “tribos” e envolvidas por um sentimento oceânico de pertencimento.

Publicado por Mateus Alves

Sou um estudante de jornalismo, apegado às ciências humanas e em busca de consciência. Dessa forma, sigo tentando ver em cada fresta um mundo sobre o qual vale a pena debater. Novos textos toda terça e quinta.

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